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Exposição fotográfica

No final do século XVIII, a coroa portuguesa financiou um dos mais fantásticos projetos científicos de sempre, as Viagens Filosóficas, expedições que tinham a intenção de documentar a grande riqueza e diversidade biológica e cultural do que era, então, o reino de Portugal. Entre 1783 e 1792, o naturalista luso-brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira fez uma Viagem Filosófica à Região Amazônica brasileira e recolheu inúmeros exemplares que testemunham a singular beleza daquela região e dos seus habitantes. Esta exposição de fotografias é resultado de uma parceria entre a Universidade Federal do Rio Grande do Norte e o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, com o objetivo de dar a conhecer um pouco dos povos indígenas da Amazônia naquele período. É também um convite para uma viagem de três séculos, em que as memórias e as tradições de dois países se interligam e se exibem nos objetos de Alexandre Rodrigues Ferreira e nas palavras de Luís da Câmara Cascudo.


BRASIL DE MADRUGADA

Mapas de Cantino, Waldseemuller, Krunstmann.

desenho velho de Canibais e feras.

Brasil I Terra dos Papagaios…

ínsula infixável emergindo de cosmógrafos atônitos

se estirando larga-escura n’água azul…

Bojo gemente de caravelas que o vento enfuna amplo velame

e a Cruz de Cristo sangrando na vela-grande.

Barbudos soldadões que viram Prestes João

na linha interminável do Mar longo…

… viola, cantiga, folhagem boiando…

suja espuma babando a sombra do Monte

… jarretes velozes voando no dorso da areia

da praia praina chan e mui fermosa.

Cruzeiro de pau na terra selvagem

cruzinha de chumbo no índio curvado.

Brasil de madrugada

com flechas, batoques, inúbias, cocares,

dançando, correndo, fugindo, voltando.

Papel amarelo coberto de letras:

“Serenissimi Emmanuelius Regis

Portugaliae Algarbiorum citra et ultra mare

in Africa dominus Guinae”.


Fonte: COSTA, Américo de Oliveira. Viagem ao universo de Câmara Cascudo. Natal: Fundação José Augusto, 1969. p. 238